17 de mai. de 2013

Desabafo de um Coordenador de Desenvolvimento

Quero crer que não estou fazendo errado, nem pensando erroneamente, nem que eu tenha ficado louco, obsoleto ou mereça ser enviado a marte por tempo indeterminado.

Desenvolvo sistemas há mais tempo do que imaginei que faria. Sou apaixonado por tecnologia e me orgulho em dizer que sou um dos poucos profissionais na ativa que desenvolve ferramentas que são realmente seguras. Sempre foi meu objetivo, aliar Segurança da Informação ao Desenvolvimento de Sistemas.

Um outro atributo que relaciono a mim com o mesmo orgulho foi o de pensar simples. Eu sempre li que os grandes mestres do passado, os grandes inventores e todos aqueles a que hoje chamamos sábios ou filósofos diziam que o Ego humano é o grande inimigo, que se deixarmos o ego ditar o que deve ser feito, nunca faremos nada.

E desde que li isto, passei a pensar simples. E cheguei onde cheguei e ganho o que ganho pensando simples.

Parece, infelizmente, que a simplicidade no mundo morreu. Morreu em detrimento da "Burocracia Tecnológica".

Vocês, caros leitores, acham que a mídia da TV, Rádio e Jornal apodrecem a mente das pessoas comuns com assuntos variados, fazendo com que nosso povo seja imbecilizado pensando apenas em diversão e futebol, não faz idéia do que a "mídia de TI" faz com nossos profissionais.

Vocês já se perguntaram porque tem que trocar de carro todo ano (para os que podem)? Porque você deve comprar essa ou aquela marca de produto? Porque eu tenho que adquirir o último iPhone 5 e que o iPhone 4S (que não tem um ano de lançamento) já não presta e se a operadora me desse de graça eu jogaria fora?

A mídia faz o seu trabalho: confundir a sua mente. E você faz o seu: ser idiota e acreditar neles.

Pois bem, fiquei realmente PUTO em ver que a mídia de TI está fazendo um estrago enorme na cabeça dos profissionais mais novos. Some-se a isto a falta completa e total de regulamentação da nossa área e, só poderia acabar em merda.

Estou há uma semana e meia procurando preencher uma vaga deixada na equipe que estou coordenando e não consigo. Coisa básica: preciso de um programador entre júnior e pleno que saiba JAVA, SWING, Hibernate conectando-se a SQL Server 2008. Um sistema cheio de regras de negócio mas que, em questão de estrutura é o mais simples possível. Bem assim: Tela > Delegate > Façade > DAO > Bean. Simples assim. Acredito realmente que, dado que não vamos ter uma camada de serviço entre a Tela e o resto, a Façade está sobrando. Isto pode ser mudado num futuro breve.

Pois bem, selecionamos 30 candidatos na net via APInfo, Catho, Manager, entre outros. Chamamos para a entrevista. O resultado foi um desastre. Para a psicóloga o que foi demonstrado foi: arrogância, fraqueza de carater, prepotência, problemas com autoridade, problemas com cumprimento de prazos e metas e por ai vai. Comigo é mais simples: apliquei uma prova, 14 questões de múltipla escolha e 6 dissertativas sobre Thread, Hibernate (como configurar), laços, herança e comandos básico de JAVA, afinal, queremos um júnior para pleno.

Fiz o seguinte: pedi ao membro que considero o mais júnior da minha equipe para fazer a prova. Ele tirou 7.5 (de 10) então pensei, bom, a prova deve estar fácil demais ou o rapaz é muito bom. Esta mesma prova foi feita pelos 30 candidatos que (entre eles 5 se considerava Sênior ou de Pleno para Sênior) a fizeram e o resultado foi: dos 30 dois tiraram 6 e o resto ficou abaixo de 3. Pasmem, os que menor nota tiraram mais estavam pedindo em relação a salário (a coisa foi dos 5 aos 10 mil reais).

Que empresa paga 10 mil reais a um programador java pleno? Me falem onde é que eu vou trabalhar la!!!

O que me emputeceu mais não foi nem a minha dificuldade em encontrar alguém com real conhecimento e com humildade para querer ganhar o que vale. Meu emputecimento ficou na entrevista de um determinado candidato discutindo comigo o que ele queria fazer na empresa caso fosse contratado:

Eu: "O que está te motivando a procurar outras oportunidades, visto que a empresa que você está é bem conceituada no mercado e parece que você está lá há uns 2 anos?".

Candidato: "Veja, estou desapontado com a empresa onde estou trabalhando porque lá não tenho como inovar. Eu estou estudando a tecnologia X e a Y em casa e acho que se aplicarmos isto na empresa vamos ganhar muito com isso, muito mesmo".

Eu: "Defina o que seria o ganhar muito e quem ganha este muito?"

Candidato: "Ah, nós do desenvolvimento hoje temos que cumprir prazos que não condizem com a realidade e que não nos permite construir corretamente a aplicação, nem realizarmos os testes unitários e os testes funcionais e a qualidade da entrega cai e quando formos realizar a manutenção vamos ter problemas e vai ficar mais difícil e ..." não conseguiu mais continuar.

Lembra todo o blá blá blá que falei antes, da compra do carro e tal? Bem, em 1995 quando comecei a programar tínhamos aplicações desktop para windows ou escritas em C++, ou Delphi ou VB e as aplicações Mainframe em COBOL. Havia começado a ficar popular a internet, discada claro, e os bancos, principalmente, começavam a tentar disponibilizar acesso a seus sistemas aos usuários para diminuir os custos de manter uma agência física.

Muitos bancos disponibilizavam um servidor RAS (tio Google ajuda os novinhos a entender o que é tá?) que com emulador de terminal era possível usar o sistema produto (Conta Corrente, etc) e ver saldos e extratos e realizar algumas outras operações no que chamavam de "cara preta" mas que era a tela do Mainframe.

Alguns inovaram e como estava havendo no Brasil um barateamento do computador pessoal (a bagatela de R$ 3.000,00 por um desktop sendo que um Kadet Sport da Chevrolet custava cerca de R$ 20.000 reais hoje. Um carro daquele tipo hoje estaria na faixa de uns R$ 60.000,00) estas empresas estavam criando aplicativos desktop que os usuários que pudessem fazer home-banking poderiam adquirir na agência e instalar em seus computadores para acessar, com o auxílio de um modem (Googlão ajuda novamente) teriam uma experiência mais rica podendo inclusive gerar relatórios e imprimir em casa, etc.

Estas aplicações eram simples, não tinham desenho em camadas, eram mais orientadas a dejetos do que a objetos e outras nem orientada a objetos eram mas tudo funcionava bem.

Concordo que algumas coisas precisam evoluir mas, evoluir de forma organizada. Hoje não há quem não tenha acesso a internet banda larga, nem que seja via lan-house (lan-house? Já pensou nisto há 10 anos atrás? Você poder tomar café em algum lugar na frente de um computador que não é seu, pagado por isto obviamente e ... bem na época você não ia fazer nada, porque o conteúdo da internet tinha mais a ver com assuntos acadêmicos e coisas de valor do que o monte de lixo que tem espalhado por lá hoje). Também não há quem não tenha computador em casa, ou um smartphone, agora smartTV também. Se evoluir mais minha privada vai postar no Facebook a merda que eu fizer de manhã.

Porque um programador JAVA deixou de ser um programador JAVA? Agora ele é um Programador JAVA-Scala-Ruby-on/offRails-Groovy-Python-SpringMVC-JSF-PrimeFaces-Wicket-etc ...

Porque os "javeiros" não sabem mais programar em JAVA sem o auxílio de algo mais?

Trabalho numa empresa que continua ganhando MUITO por causa principalmente das facilidades que a TI (pequena para um negócio tão grande) gera. 10 programadores. 8 deles programadores Delphi. Delphi 5 e 7. Nada mais novo do que isto. Um programador .NET (entre os programadores Delphi). Mas .NET 1.1 e 2.0. Nada mais novo do que isto.

E tudo funciona bem.

Alguns problemas que temos em relação a manutenção se tem por "cagadacterísticas" de alguns programadores que nem estão mais na empresa. Essas aplicações não tem milhões de camadas. Ganhamos diversos prêmios por essas aplicações feitas de forma SIMPLES e nossos clientes (Gigantescas empresas diga-se de passagem) estão sempre satisfeitos. Alguns deles, que tem essa massa inovadora de programadores, leitores de INFOExame e que estão sempre antenados e na última tendência da tecnologia, nos perguntam sempre como podemos inovar mantendo a simplicidade.

Este é o ponto a que quero chegar: inovar sem perder a simplicidade. JAVA faz. Pronto!!!

Existem algumas coisas que ajudam no caminho, mas, com certeza, não é uma tecnologia que foi inventada ontem que vai te ajudar a ser inovador e tirar todas as dores de cabeça da sua vida. Também não é lendo uma matéria na INFO que você vai se tornar um EXPERT em determinado novo assunto. E não é porque 30 milhões de nerds no mundo que vão numa feira de informática patrocinada pelo Google estão dizendo que o X é o melhor que quem paga nosso salário vai apostar nisto.

Você que está pensando em se candidatar a uma vaga, cheio de sonhos de que numa nova empresa alguém que paga milhões em salários vai olhar para você como o messias leitor de INFO Exame e dizer que você é o cara que vai trazer a nova tecnologia que ninguém usou por mais de um ano e vai te contratar para virar pesquisador. Ninguém vai te pagar para ficar testando algo que alguém fez para você no final chegar a conclusão de que faz o mesmo que outro "treco" já fazia. Ninguém vai te pagar para algo que não traga um retorno material e rápido. Ninguém.

Não caia nessa e não passe o ridículo de buscar algo assim.

Tem uma hora na vida que o novo não importa mais, o que importa é o certo. E o certo é o que faz acontecer, não importa como!

#FicaADica

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